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Avanços no sequenciamento e na interpretação do DNA permitem reanalisar casos à luz de novas evidências; dois trabalhos da CENTOGENE apresentados no Congresso Brasileiro de Genética Médica e Genômica ilustram o potencial da abordagem

Chegar ao diagnóstico de uma doença rara ainda pode significar uma longa jornada para pacientes e famílias. Sintomas que se sobrepõem aos de condições mais comuns, manifestações em diferentes órgãos e a própria dificuldade de reconhecer doenças pouco frequentes fazem com que muitos casos passem anos sem uma explicação definitiva. Nesse cenário, os avanços no sequenciamento genético estão mudando não apenas a capacidade de identificar alterações no DNA, mas também a forma como os casos são investigados e revisitados ao longo do tempo.

Essa evolução será discutida no XXXVII Congresso Brasileiro de Genética Médica e Genômica (CBGM), realizado de 2 a 5 de setembro, em São Luís (MA). O congresso marca os 40 anos da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica e tem entre seus objetivos discutir os avanços da genética médica, da genômica e da medicina de precisão, além da incorporação dessas tecnologias ao sistema de saúde brasileiro.

Durante o encontro, a CENTOGENE apresenta dois trabalhos que mostram, na prática, como o sequenciamento completo do genoma pode contribuir para esclarecer diagnósticos complexos e orientar estratégias de cuidado individualizadas.

“Na genética médica, o conhecimento está em constante evolução. Uma alteração que hoje não conseguimos interpretar com segurança pode, no futuro, passar a ter uma associação mais bem estabelecida com determinada doença. Por isso, o acompanhamento longitudinal e a possibilidade de reanalisar um caso são tão importantes quanto a realização do sequenciamento”, afirma Carlos Magno Leprevost, médico geneticista da CENTOGENE e autor dos estudos.

Quando o genoma deixa de ser o último recurso

Durante muito tempo, a investigação genética era utilizada principalmente depois que outras hipóteses diagnósticas haviam sido esgotadas. Esse modelo pode prolongar ainda mais a jornada de pessoas com doenças raras, justamente porque muitas dessas condições não apresentam sinais exclusivos e podem se confundir com doenças mais frequentes.

O avanço do sequenciamento de genoma completo (WGS, na sigla em inglês) ampliou essa possibilidade. Em vez de analisar um único gene por vez, a tecnologia permite examinar praticamente todo o genoma e diferentes tipos de alterações genéticas. O CentoGenome, solução de sequenciamento completo do genoma da CENTOGENE, foi desenvolvido para a investigação de doenças raras e neurodegenerativas e consegue identificar alterações de sequência, variantes estruturais, variações no número de cópias, dissomia uniparental e expansões de repetição, entre outros achados.

O exame também utiliza análise bioinformática e interpretação médica especializada, apoiadas pelo CENTOGENE Biodatabank. A empresa informa que seu banco reúne dados de aproximadamente 850 mil pacientes de mais de 120 países, permitindo incorporar ao processo de interpretação informações acumuladas sobre doenças e alterações genéticas.

“Quando ampliamos a quantidade e a qualidade das informações disponíveis para interpretar um genoma, aumentamos também a possibilidade de encontrar relações que não seriam evidentes em uma análise isolada. O grande ganho está em conectar o dado genético à informação clínica e ao conhecimento acumulado sobre aquela doença”, explica Leprevost.

Uma paciente que passou oito anos sem diagnóstico

Um dos trabalhos apresentados pela equipe da CENTOGENE no CBGM mostra de forma concreta o impacto dessa abordagem. O caso é de uma mulher que começou a apresentar, aos 50 anos, desequilíbrio progressivo, instabilidade postural, dificuldade para falar e subir escadas, além de quedas e comprometimento cognitivo leve. Mesmo após aproximadamente oito anos de investigação, a causa do quadro permanecia desconhecida.

O sequenciamento completo do genoma identificou uma variante patogênica homozigótica inédita no gene ANO10, confirmando o diagnóstico de ataxia espinocerebelar autossômica recessiva tipo 10 (SCAR10), uma doença neurodegenerativa ultrarrara. Pouco mais de 40 casos haviam sido relatados mundialmente, predominantemente em populações europeias. A apresentação aos 50 anos também foi considerada atípica, já que a condição costuma se manifestar na adolescência ou no início da vida adulta.

A confirmação molecular teve ainda repercussão na condução do caso. A associação entre o gene ANO10, alterações mitocondriais e deficiência secundária de coenzima Q10 fundamentou a adoção de uma estratégia terapêutica direcionada, com suplementação mitocondrial, além de medidas para controle dos sintomas e prevenção de quedas.

“Esse caso mostra por que o diagnóstico molecular pode ser tão importante. Durante anos, a paciente tinha sintomas reais, mas não havia uma causa que unificasse o quadro. Quando encontramos a alteração genética, conseguimos não apenas dar um nome à doença, mas compreender melhor sua fisiopatologia e direcionar o cuidado”, afirma o médico.

Em crianças, o diagnóstico molecular também pode reunir as peças

O segundo trabalho da equipe aborda a síndrome de Snyder-Robinson, uma condição genética ultrarrara ligada ao cromossomo X e causada por alterações no gene SMS. A síndrome está associada a deficiência intelectual, hipotonia, alterações esqueléticas, características faciais específicas e epilepsia. Há menos de 100 casos descritos na literatura mundial.

O paciente, um menino de dois anos, apresentava atraso do neurodesenvolvimento, transtorno do espectro autista, hipotonia, alterações características da face e evolução de epilepsia, inicialmente associada a episódios febris. A investigação genética identificou uma variante patogênica no gene SMS, confirmando o diagnóstico e permitindo integrar manifestações que poderiam, isoladamente, ser investigadas como problemas distintos.

A confirmação genética também teve impacto no manejo do paciente. Após mudanças na estratégia medicamentosa, houve resolução das crises, melhora dos achados eletroencefalográficos e evolução clínica favorável durante o acompanhamento.

“Em doenças ultrarraras, o diagnóstico molecular pode ajudar a juntar peças que estavam dispersas. Uma criança pode ter alterações neurológicas, esqueléticas e epilepsia, por exemplo, e cada uma delas ser investigada separadamente. Quando encontramos uma causa genética comum, passamos a enxergar o paciente de forma integrada”, explica o médico.

O resultado do exame pode mudar com o avanço da ciência

A evolução da genética médica também modificou o conceito de acompanhamento após o sequenciamento. Isso porque o conhecimento sobre genes e doenças continua crescendo, e a interpretação de uma alteração pode mudar à medida que novas evidências científicas surgem.

Na solução de genoma da CENTOGENE, os dados podem ser reanalisados diante de novas informações clínicas ou científicas. O material da empresa prevê ainda um programa de reclassificação proativa de variantes e a possibilidade de reanálise de casos com resultados inconclusivos ou negativos.

“Na prática, isso significa que um resultado genético não precisa representar necessariamente o fim da investigação. Em algumas situações, ele é o início de um acompanhamento que pode incorporar novas evidências ao longo do tempo”, afirma Leprevost.

Essa característica é especialmente relevante em doenças raras, nas quais o conhecimento científico muitas vezes é limitado pelo pequeno número de pacientes conhecidos. À medida que novos casos são identificados e descritos, cresce também a capacidade de relacionar características clínicas a determinadas alterações genéticas.

Mais velocidade, mas também mais interpretação

O avanço tecnológico também permite reduzir o tempo entre a coleta da amostra e a obtenção de informações relevantes. A versão CentoGenome Ultra-Fast, por exemplo, informa prazo de até cinco dias úteis para emissão do relatório em determinadas condições e é indicada pela empresa para situações críticas, como terapia intensiva e emergências.

O desafio, porém, não é apenas sequenciar mais rapidamente. Um genoma contém uma quantidade enorme de informações, e é necessário estabelecer quais alterações têm relevância clínica para aquele paciente. Por isso, a combinação entre tecnologia, bioinformática, conhecimento médico e atualização das bases de dados é determinante para transformar o sequenciamento em uma resposta clinicamente útil.

“Não adianta apenas sequenciar mais rápido. Precisamos identificar o que é relevante, interpretar corretamente e colocar o resultado em contexto clínico. O verdadeiro avanço acontece quando tecnologia, conhecimento médico e informação genética trabalham juntos para encurtar a distância entre o primeiro sintoma e uma resposta”, conclui Carlos Leprevost.

 

Fonte: DIGITAL TRIX.

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