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Uma noite mal dormida não é suficiente para “baixar a imunidade”, mas a privação recorrente de sono pode interferir na resposta do organismo; infectologista Paula Pinhão explica o que acontece enquanto dormimos

Depois de uma noite mal dormida, é comum acordar cansado, irritado e com a sensação de que o corpo não está funcionando direito. Daí vem uma dúvida bastante popular: será que dormir pouco também prejudica a capacidade do organismo de se defender de infecções?

A resposta não é tão simples quanto dizer que “dormir mal derruba a imunidade”. Uma noite ruim, isoladamente, não significa que o sistema imunológico ficará comprometido. O problema está na falta de sono que se torna frequente e passa a fazer parte da rotina.

“O sono é um processo ativo e fundamental para o funcionamento do organismo. Durante esse período, acontecem diversos processos de regulação, inclusive relacionados ao sistema imunológico. Quando a privação de sono deixa de ser pontual e passa a ser recorrente, podemos ter alterações na resposta imunológica”, explica a infectologista Dra. Paula Pinhão, diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida.

A relação entre sono e imunidade é complexa. Durante o sono, o organismo participa da regulação de células e mediadores envolvidos na resposta imune e inflamatória. Quando a pessoa dorme sistematicamente menos do que necessita, esses mecanismos podem ser afetados.

Estudos experimentais e observacionais já encontraram associações entre restrição de sono e alterações em diferentes componentes da resposta imunológica. Há também evidências de que pessoas submetidas a períodos de sono insuficiente podem apresentar maior suscetibilidade a algumas infecções, embora isso não permita afirmar que toda pessoa que dorme pouco necessariamente ficará doente. “Não podemos transformar uma associação em uma regra. Uma pessoa pode passar uma noite em claro e não ter nenhuma infecção por causa disso. O que nos preocupa é o padrão de privação de sono e o conjunto de fatores que acompanha esse hábito”, afirma Paula.

Na vida real, dormir pouco raramente acontece de forma isolada. Prazos, excesso de trabalho, estresse, uso prolongado de telas, horários irregulares, consumo excessivo de cafeína e outras escolhas ou condições podem reduzir tanto a duração quanto a qualidade do sono. E esse conjunto de fatores também pode influenciar a saúde.

Existe ainda uma relação de mão dupla. Assim como a falta de sono pode interferir em mecanismos relacionados à imunidade, infecções e processos inflamatórios também podem modificar o sono. Não é por acaso que, durante uma infecção, muitas pessoas sentem mais sono ou percebem alterações importantes no padrão habitual de descanso.

“Quando estamos doentes, o organismo muda o seu funcionamento. Sono, temperatura corporal, apetite e disposição podem ser alterados como parte dessa resposta. Por isso, não devemos olhar para sono e imunidade como duas coisas independentes”, explica a médica.

Essa relação ajuda a colocar em perspectiva outro hábito bastante comum: tentar compensar noites mal dormidas com suplementos, vitaminas ou produtos vendidos com a promessa de “fortalecer a imunidade”.

“Suplementos não são capazes de substituir o sono. Para uma pessoa saudável, a melhor estratégia para preservar o funcionamento adequado do sistema imunológico passa muito mais por uma rotina consistente de sono, alimentação adequada, atividade física, vacinação e controle dos fatores de risco do que pela busca de um produto que prometa aumentar as defesas do organismo”, diz Paula, que continua: “Não existe imunidade de laboratório. O sistema imunológico precisa funcionar de maneira equilibrada, e isso depende de muitos fatores. O estilo de vida não impede que uma pessoa tenha uma infecção, mas pode contribuir para que o organismo tenha melhores condições de responder aos diferentes desafios”.

Por isso, talvez o sinal mais importante não seja uma noite ocasionalmente mal dormida, mas perceber quando dormir pouco deixou de ser exceção e passou a ser rotina. “Acordar diariamente cansado, depender de estimulantes para permanecer acordado, ter dificuldade de concentração ou precisar dormir muito mais nos finais de semana para tentar compensar a semana são sinais de que vale olhar com mais atenção para a qualidade e a duração do sono”, alerta a médica.

A infectologista lembra ainda que o sono insuficiente não deve ser normalizado como símbolo de produtividade. “Existe uma cultura de valorizar quem dorme pouco como se isso fosse sinônimo de dedicação ou eficiência. O problema é que o organismo não funciona melhor porque a agenda está cheia. Descanso também faz parte da saúde”, finaliza.

Sobre a Dra. Paula Pinhão
Dra. Paula Pinhão é médica formada pela Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA), com residência em Infectologia pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas, um dos mais importantes centros de referência em doenças infecciosas do país. Também possui certificação internacional em Medicina do Estilo de Vida pelo International Board of Lifestyle Medicine (IBLM). Atualmente é uma das diretoras do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida.

Durante a pandemia de Covid-19, atuou na linha de frente do atendimento a pacientes em pronto-socorro e unidades de terapia intensiva (UTI), experiência que reforçou sua convicção sobre a importância da prevenção e do cuidado integral na promoção da saúde.

Em sua prática clínica, integra os conhecimentos da Infectologia e da Medicina do Estilo de Vida para oferecer um cuidado baseado em evidências científicas, com foco não apenas no diagnóstico e tratamento das doenças infecciosas, mas também na adoção de hábitos que favorecem o funcionamento do sistema imunológico e contribuem para uma vida mais saudável. Acredita que alimentação equilibrada, sono de qualidade, atividade física, manejo do estresse, relacionamentos saudáveis e a prevenção por meio da vacinação são pilares fundamentais para reduzir o risco de infecções e promover qualidade de vida.

Seu trabalho é pautado pela ciência, pela educação em saúde e pelo compromisso de traduzir informações complexas em orientações acessíveis, ajudando as pessoas a fazer escolhas conscientes para prevenir doenças e cuidar da saúde de forma duradoura.

Fonte: Prima Donna Comunicação

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