Durante muito tempo, o câncer de pulmão, terceiro tipo de neoplasia mais incidente entre os homens e o quarto entre as mulheres no Brasil, foi diagnosticado e tratado da mesma forma, variando apenas de acordo com o estágio da doença. Hoje, os avanços da medicina de precisão permitem identificar características moleculares específicas do tumor que ajudam a orientar estratégias terapêuticas mais personalizadas, o que representa uma nova era de cuidado3. Em alusão ao agosto branco, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de pulmão, Dr. Lucas Uratani, Oncologista clínico da Oncologia D’Or Hospital Santa Cruz em Curitiba, destaca cinco tendências que refletem a evolução da ciência e que estão reconfigurando o diagnóstico, o tratamento e a jornada de cuidado de pacientes.
O câncer de pulmão deixou de ser uma única doença
O câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC), responsável por cerca de 85% dos casos, reúne diferentes perfis moleculares[4]. Entre eles estão as mutações no gene EGFR, que podem ser identificadas por meio de testes moleculares realizados após o diagnóstico da doença avançada ou metastática3. “Hoje sabemos que não existe um único câncer de pulmão. Conhecer a biologia do tumor tornou-se essencial para definir a melhor estratégia terapêutica para cada paciente“, explica o médico.
O diagnóstico molecular passou a orientar as decisões desde o início da jornada
Os testes moleculares tornaram-se parte fundamental da avaliação de pacientes com mutação EGFR[5]. Esses exames permitem identificar alterações genéticas específicas5. Segundo Uratani, “essa mudança representa uma ruptura com o modelo tradicional, no qual pacientes com o mesmo tipo de câncer recebiam tratamentos semelhantes, independentemente das características biológicas do tumor”.
A medicina de precisão amplia as possibilidades para pacientes com mutação de EGFR
Os avanços científicos estão transformando o tratamento do câncer de pulmão com mutação EGFR5. Novas combinações e abordagens inovadoras estão ampliando as opções terapêuticas e contribuindo para a evolução do padrão de cuidado3.
Entre os avanços recentes está a combinação de amivantamabe e lazertinibe, aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para o tratamento de primeira linha de pacientes adultos com CPNPC localmente avançado sem irressecável (que não pode ser operado) ou metastático (quando o câncer já se espalhou) com mutações clássicas do EGFR (deleção no éxon 19 ou L858R no éxon 21)[6].
No estudo MARIPOSA (fase III), essa combinação reduziu em 30% o risco de progressão da doença ou morte em comparação ao osimertinibe, padrão de tratamento usado em primeira linha, e proporcionou uma duração mediana de resposta cerca de nove meses superior[7].
“Cada avanço científico representa uma nova possibilidade para os pacientes. Os resultados do estudo MARIPOSA mostram que novas estratégias terapêuticas podem contribuir para um controle mais prolongado da doença em pessoas com mutações comuns do EGFR, ampliando as opções disponíveis de manejo do câncer de pulmão”, destaca.
O foco deixou de ser apenas tratar a doença, mas viver melhor durante o tratamento
A combinação entre diagnóstico de precisão, inovação terapêutica e participação ativa do paciente tem transformado o cuidado em câncer de pulmão3. Mais do que prolongar a sobrevida, a medicina busca preservar a qualidade de vida e ampliar as oportunidades para que cada pessoa viva mais momentos que realmente importam8.
“Quando conseguimos prolongar o tempo em que a doença permanece controlada, oferecemos ao paciente mais tempo antes que o câncer volte a progredir, outro benefício que a combinação do amivantamabe e lazertinibe atestou no estudo MARIPOSA, resultando em maior controle da doença, retardando o momento em que o tumor volta a crescer”, ressalta o oncologista.
Segundo o Dr. Lucas Uratani, “para muitos pacientes, esse tempo de remissão representa a oportunidade de manter sua rotina, conviver com a família, realizar planos e preservar sua qualidade de vida por mais tempo”. “É esse também o impacto que buscamos quando falamos em inovação na oncologia“, opina.
O paciente passou a participar das decisões sobre seu tratamento
Outra mudança importante é o fortalecimento da tomada de decisão compartilhada[8]. Hoje, compreender as opções disponíveis, esclarecer dúvidas e manter um diálogo aberto com a equipe médica fazem parte do cuidado oncológico8.
De acordo com o oncologista, “a medicina personalizada não envolve apenas acompanhamento de exames e medicamentos, mas pressupõe compreender os objetivos, prioridades e expectativas de cada paciente para construir, em conjunto, o plano terapêutico.”
“Estamos vivendo uma nova era no tratamento do câncer de pulmão. A combinação entre inovação, conhecimento e cuidado centrado no paciente tem transformado a jornada daqueles que convivem com a doença“, conclui.
Referências
[1] Instituto Nacional do Câncer. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/pulmao. Acesso em 21 de julho de 2026.
[2] O’BRIEN, Timothy D.; JIA, Peilin; ALDRICH, Melinda C.; ZHAO, Zhongming. Lung cancer: one disease or many. Human Heredity, Basel, v. 83, n. 2, p. 65-70, 2018. DOI: https://doi.org/10.1159/000488942. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29864749/. Acesso em 31 julho de 2026.
[3] Instituto Vencer o Câncer. Disponível em: https://vencerocancer.org.br/cancer/tratamento-do-cancer-de-pulmao/. Acesso em 21 de julho de 2026.
[4] American Cancer Society. Disponível em: https://www.cancer.org/cancer/types/lung-cancer/about/what-is.html. Acesso em 21 de julho de 2026.
[5] Oncoguia. Disponível em: https://www.oncoguia.org.br/conteudo/5-forum-oncoguia-de-cancer-de-pulmao/16509/1365/. Acesso em 31 de julho de 2026.
[6] Anvisa. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/lazcluze-r-lazertinibe. Acesso em 21 de julho de 2026.
[7] CHO, Byoung Chul et al. MARIPOSA: phase 3 study of first-line amivantamab + lazertinib versus osimertinib in EGFR-mutant non-small-cell lung cancer. Future Oncology, v. 18, n. 6, p. 639–647, 2022. DOI: https://doi.org/10.2217/fon-2021-0923. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34911336/. Acesso em 21 de julho de 2026.
[8] CHERNY, Nathan I. et al. ESMO Clinical Practice Guidelines for patient involvement in cancer care. Annals of Oncology. European Society for Medical Oncology.