AFIP participa de projeto internacional para fortalecer sistema de doação e transplantes de órgãos na Guiana
Por meio do Igen, instituição atua na implementação de laboratório de histocompatibilidade que deve apoiar transplantes renais e ampliar a autonomia diagnóstica do país
O Brasil terá participação técnica em um projeto internacional voltado ao fortalecimento do sistema de doação e transplantes de órgãos na Guiana. O Instituto de Imunogenética (Igen), da AFIP, será o laboratório de referência em HLA, exame essencial para avaliar a compatibilidade entre doadores e receptores, e apoiar a implementação do laboratório nacional de histocompatibilidade do país, que deverá funcionar no National Public Health Reference Laboratory, em Georgetown.
A iniciativa, intitulada “Building a sustainable organ donation and transplantation program in Guyana”, é conduzida pela Donation and Transplantation Institute (DTI Foundation), de Barcelona, no âmbito do Guyana HealthNext: Training, Research and Development Programme, financiado pela União Europeia e gerido pela Expertise France.
Segundo dados divulgados pelo Department of Public Information, órgão oficial do governo da Guiana, o país lançou, em junho de 2026, uma iniciativa de 31 meses para construir um sistema nacional de doação e transplantes de órgãos sustentável, resiliente e alinhado a padrões internacionais. Com duração prevista até outubro de 2028, o projeto teve início em abril e busca fortalecer a estrutura institucional, clínica, regulatória e laboratorial da Guiana, na implementação de protocolos para transplante renal com doador vivo e falecido.
A iniciativa ocorre em um momento de expansão dos serviços de transplante renal no país. De acordo com o Georgetown Public Hospital Corporation (GPHC), hospital público de referência na Guiana, mais de 2.200 novos pacientes nefrológicos foram registrados entre 2023 e 2025, e 360 pacientes estavam em diálise em dezembro de 2025. No mesmo ano, o GPHC realizou 13 transplantes renais, número que colocou o país em posição de destaque no Caribe. Em 2025, a instituição também realizou o primeiro transplante renal em cadeia da Guiana e do Caribe, envolvendo quatro pares de doadores e receptores e oito cirurgias.

A criação do laboratório de HLA é considerada uma etapa estratégica para sustentar esse avanço. O exame identifica marcadores imunológicos que ajudam a determinar a compatibilidade entre doador e receptor, reduzindo riscos de rejeição e apoiando decisões clínicas em transplantes. Até então, segundo o Ministério da Saúde da Guiana, as amostras de HLA precisavam ser enviadas para fora do país, o que gerava custos elevados e atrasos para pacientes e famílias. Em publicação oficial, o governo informou que o envio das amostras aos Estados Unidos poderia custar aproximadamente US$3 mil por pessoa.
Para Renato de Marco, biomédico especialista em histocompatibilidade e diretor do Igen, a construção dessa capacidade local representa um avanço estrutural para o sistema de saúde da Guiana. “A estruturação local desse tipo de capacidade representa um avanço importante para o país, ao permitir maior autonomia nos processos, agilidade na tomada de decisão clínica e segurança na compatibilidade entre doadores e receptores, fatores essenciais para a sustentabilidade de um programa de transplantes”, afirma.
A primeira missão técnica do projeto aconteceu entre os dias 1º e 5 de junho de 2026, em Georgetown. A equipe de avaliação foi formada por sete especialistas divididos em três frentes: planejamento de projetos, estratégia e cooperação regional; doação de órgãos, transplantes, nefrologia e plano estratégico; e laboratório HLA. O grupo responsável pela área de histocompatibilidade contou com Dr. Eduard Palau, do Hospital Clínic de Barcelona, e com as especialistas Gisele Rampim e Renata Fantini, do Igen/AFIP.
Durante a visita, a equipe participou de reuniões com o Ministério da Saúde da Guiana, a Guyana Human Organ and Tissue Transplant Agency (HOATTA), o Georgetown Public Hospital Corporation e outros stakeholders locais. Nos dias seguintes, os especialistas em histocompatibilidade realizaram inspeções no futuro laboratório HLA, avaliando infraestrutura, instalações, biossegurança, equipamentos, sistema da qualidade, recursos humanos, necessidades de treinamento, controles de qualidade, segurança e integridade de dados.
Um laboratório HLA exige alta especialização técnico-científica e um sistema de qualidade robusto. “A visita foi fundamental para orientar o planejamento estratégico da implementação, desde a escolha das tecnologias e equipamentos até a adequação dos espaços físicos, dos processos regulatórios e das rotinas de qualidade”, destaca Gisele Rampim, assessora em histocompatibilidade no Igen/AFIP e especialista em histocompatibilidade pela Associação Brasileira de Histocompatibilidade e Imunogenética (ABHI).
A próxima etapa será o treinamento técnico e científico da futura diretora do laboratório HLA da Guiana no Igen, em São Paulo. A formação terá duração prevista de seis meses e incluirá treinamento nas metodologias utilizadas pelo instituto, com ênfase na interpretação de resultados e na capacitação para tomada de decisão em imunologia de transplantes. Também estão previstas ações de supervisão técnica, apoio à validação de métodos, desenvolvimento de procedimentos operacionais padrão e suporte ao controle externo da qualidade.
Para o Igen/AFIP, a participação no projeto reforça o papel da instituição na transferência de conhecimento técnico-científico em saúde. “Padronizações e otimizações reduzem o tempo de realização dos exames e aumentam a qualidade dos resultados. Em transplantes, isso tem impacto direto na segurança da compatibilidade e na tomada de decisão clínica”, acrescenta Renata Fantini, coordenadora do setor de Provas Cruzadas do Igen/AFIP e especialista em histocompatibilidade pela Associação Brasileira de Histocompatibilidade e Imunogenética (ABHI).
O projeto também prevê ações em outras frentes, como fortalecimento da nefrologia e do manejo da doença renal crônica, estruturação de lista nacional de espera, capacitação em doação de órgãos, desenvolvimento de protocolos clínicos, criação de registros nacionais e elaboração de um plano estratégico de cinco anos para doação e transplantes na Guiana.
A expectativa é que, no futuro, a estrutura local possa contribuir também para ampliar a capacidade regional de atendimento no Caribe. “O laboratório HLA tem papel central na viabilização dos transplantes, porque permitirá que exames de alta complexidade sejam realizados localmente e com segurança. A missão tem como objetivo promover a transferência de conhecimento para que a Guiana desenvolva autonomia técnica e consiga conduzir seu programa de transplantes de forma independente e sustentável”, afirma Renato de Marco.
Sobre a Afip
A Afip é um ecossistema que integra ciência, tecnologia e prestação de serviços de saúde. Filantrópica e referência em medicina diagnóstica, tem uma atuação abrangente, com unidades de negócio em pesquisa, ensino e serviços. Atende parceiros públicos e privados nas diversas regiões do país e se destaca pelas soluções de excelência, pelo impacto social e pelas pesquisas científicas de reconhecimento internacional. São 50 anos de história inspirados pela ciência e dedicados à saúde. Para informações adicionais, acesse o site www.afip.com.br.
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